Não... não é o making of de um editorial de moda ou de uma campanha publicitária.E a foto "postada", eu a segurar numa prova "barytha" no meio de um quadro de moldura?
O que é isto?
Bom meus amigos, se algum dia forem fazer uma exposição a sério, não imaginam o trabalho que isso dá.
Não, a exposição não é minha :)
OK, um grande amigo meu, Carlos Cardoso, encontra-se a preparar uma grande exposição que inaugurará em 3 de Setembro de 2010 no "Museu do Oriente" em Lisboa. O seu titulo? "Sangam"!
O "projecto Sangam" (chamemos-lhe assim) é o culminar de cerca de 20 anos de viagens feitas na India pelo Carlos. Trata-se de um trabalho executado a preto e branco, e em filme médio-formato (6x4,5cm) ou 35mm panorâmico (24x60mm).
"Sangam" retrata essencialmente a grande peregrinação que é o Khumba Mela.
De "Sangam" irei-vos falar outro dia, não hoje.
Do que vos quero falar, no fundo é dos problemas que em Portugal surgem a quem procura montar um projecto desta envergadura.
Como já perceberam, eu estou envolvido neste projecto de várias formas :)
O primeiro problema que surgiu ao Carlos, foi como converter os negativos filme em ficheiros digitais de altissima qualidade. Para isso, não poderia ser um qualquer scanner, a solução foi recorrer a um scanner de tambor virtual (Imacon / Hasselblad).
Depois, uma digitalização standard, não dá com filme preto e branco os resultados desejados. Os primeiros testes são frustrantes, pois o "grão do filme" dispara na digitalização. Aqui, levanta-se a questão: há quem consiga contornar o problema, como o fazem?
O Carlos é obssessivo, e toca de estudar os grandes "scanneristas" Parisienses. Passa-me a informação recolhida, e eu com base nisso tento ajustar as digitalizações. Depois de vários meses de "trial and error" a testar diferentes técnicas usadas pelos "franceses" conseguimos afinar a máquina, ou seja conseguimos atingir os resultados pretendidos (todas as digitalizações foram feitas por mim, eu fui o "scannerista").
Uma coisa vos digo, para quem como eu que só usa digital actualmente, o filme é uma dor de cabeça. As emulsões fotográficas actualmente são uma mera imitação do que foram no passado. A qualidade do grão dos sais de prata já não é uniforme e isso vê-se, depois um scanner de "high-end" não perdoa, consegue ir buscar informação que se perdia nos tempos dos "ampliadores".
A fase seguinte é passar a imagem digital a papel.
Aqui, o nosso país é uma vergonha total.
Papeis de qualidade no nosso mercado, só aparecem dois ou três, os melhores papeis não se encontram disponiveis.
Que fazer?
Mandar vir de Londres!
Começa o Carlos a testar papeis. Sim as gamas dinâmicas são diferentes de barytha para algodão, de lustro para brilhante ou para mate, de fabricante para fabricante.
Escolhe-se uma imagem e toca a imprimir em "Harman", "Haenemuehle", "Ilford", "Epson", e por aí adiante.
Depois á que comparar umas provas ao lado das outras, em "boots de visualização" calibrados (também vieram de Londres), á luz do dia, á luz ambiente, etc.
O que se procura? Gama dinâmica, ausencia de "bronzing", contraste que não destrua os meios tons.
Imprimem-se as provas em vários formatos (A3 e A2).
Já imaginaram o trabalho e os custos envolvidos?
Como referencia comparavam-se também algumas dessas provas digitais com provas argenticas do mesmo negativo. Ou seja, com vista a procurar manter o resultado digital o mais fiel possivel ao resultado argentico. Criar coerencia.
Agora reparem, entre eu e o Carlos existem 300 Km a separar-nos, já imaginaram os longos telefonemas? Claro está que também reunimos pelo meio... mas, muito foi feito á distancia.
A impressão é com o Carlos, só que eu tinha que ajustar a digitalização ao resultado pretendido por ele, percebem?
Bom... tudo mais uma vez se ajustou, e... fase seguinte: apresentação e tamanhos finais.
É aqui que estamos actualmente, e é aqui que surge a fotografia postada. Testar "in loco" ou seja no espaço final e com a luz real da galeria. Ver e documentar mais uma vez.
Bom... não se chega ao exagero de Steichen quando nos anos 50 monta em Nova Iorque a exposição "The Family of Man", que constrói uma maquete da Galeria e estuda as configurações possiveis da exposição com fotos á escala e bonecos de figuras humanas para ver o impacto da imagem em proporção ao visitante :)
Mas testam-se tamanhos, molduras possiveis, localizações, etc.
Reparem bem, ainda estamos a cerca de 10 meses da inauguração, mas tudo neste momento caminha para o encerrar do ciclo.
Ou seja aproximamo-nos do resultado final.
Porque vos contei isto tudo?
Pura e simplesmente para que se apercebam como se trabalha em "fineart" a um nivel mundial.
1º Qualquer prova exposta tem que ser de altissima qualidade.
2º Qualquer prova exposta tem que ser impressa por um sistema que garanta uma longevidade desta entre 150 a 300 anos no minimo. A arte tem que durar, não pode ser efémera.
3º Qualquer obra de autor, como esta do Carlos Cardoso, implica um trabalho muitas vezes exaustivo da parte do autor, acompanhado no caso de Portugal, por uma enorme falta de meios, o que obriga a imensos contactos a nivel Europeu, na obtenção de informação e materiais.
Meus senhores (e aqui dirijo-me aos importadores de consumiveis para fotografia) será que não se imprimem fotos em Portugal?
Já é altura de começarem a surgir no nosso mercado os papeis e as tintas que existem no mercado Europeu. Se não sabem, mais de metade do "Salon de La Photo" no passado mês em Paris era dedicado a "fineart printing". Pensem um bocadinho por favor, e deixem de ser "provincianos".
Já falei de mais, para já é tudo.